Cultura
13/11/2008 | 14:21
Abaixo a repressão! Movimento Estudantil e as Liberdades Democráticas

Lançamento do livro de Ivanir José Bortot e Rafael Guimaraens
Dia 13 de novembro, às 19h30min
54ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega - Centro
O Brasil ingressou nos anos 70 sob o signo da repressão. O silêncio só era quebrado pela alegre propaganda ufanista que escondia um país de torturas, perseguições e censura. Durante a década, milhares de jovens enfrentaram a ditadura.
Organizaram suas entidades, foram às ruas, radicalizaram seus programas e abriram espaços onde a democracia aos poucos se instalou. Esta história de medos e coragem, disposição e rebeldia é contada no livro Abaixo a repressão!, que mostra a saga do Movimento Estudantil do AI-5 à reconstrução da UNE, enfatizando o comportamento e a cultura peculiar da geração dos anos 70. Editado pela Libretos, o livro ganha lançamento na Feira do Livro com uma programação que inclui mesa redonda, autógrafos e show de Nelson Coelho de Castro.
Existe uma ampla bibliografia sobre as mobilizações sociais da década de 60, que culminaram com a decretação do Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968. Pouco se fala, no entanto, deste período posterior de retomada da luta pela redemocratização do país na década de 70, na qual o movimento estudantil foi precursor de conquistas importantes, como a anistia, o fim da censura institucional, o ressurgimento das lutas operárias e o fim da ditadura militar.
Abaixo a Repressão conta essa história através de entrevistas com as principais lideranças, da recuperação de momentos dramáticos ocorridos no País durante a ditadura militar e de documentos inéditos de espionagem policial sobre as atividades estudantis.
Fartamente ilustrado, o livro traz uma ampla reportagem que reconstitui a luta pela reconstrução das entidades proibidas pela ditadura, as passeatas, as disputas internas entre as correntes estudantis, as influências culturais da geração dos anos 70 e o comportamento dos jovens que enfrentaram a repressão e sonharam com uma sociedade mais justa. Os autores Ivanir José Bortot e Rafael Guimaraens, jornalistas, participaram dos acontecimentos como dirigentes estudantis.
Abaixo a Repressão é editado pela Libretos com o patrocínio da Eletrobrás, através de Lei de Incentivo do Ministério da Cultura. O design é de Clô Barcellos.
Abaixo a repressão! Movimento Estudantil e as Liberdades Democráticas
256 páginas
Formato 18cm x24 cm
ISBN 978-85-88412-19-4
R$ 25,00
Programação de lançamento na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre:
13/11 - Quinta-feira:
17h - Mesa-redonda, na Sala Oeste do Santander Cultural
A importância do movimento estudantil na redemocratização do país
Com
Ivanir José Bortot, jornalista
Rafael Guimaraens, jornalista
Cezar Alvarez, economista
e Liliane Froemming, psicanalista
19h30min - Sessão de Autógrafos na Praça Central de Autógrafos
20h - Cordão da Saideira, na Tenda de Passárgada, show com Nelson Coelho de Castro, “Aquele tempo de Julinho”.
Por Bebê Baumgarten e Kellen Höehr/BD Divulgação.
04/11/2008 | 18:42

Há mais de 10 anos, vasculhando num desses balaios de lojas de discos, deparei-me com um CD do "Cuidado Que Mancha". Não sabia nada sobre o grupo. Mas curioso que sou, tomei nas mãos um daqueles fones que parecem pneus de caminhão de brinquedo, e me pus a ouvir o disco. Sim, antes fui obrigado a uma manobrinha: passei no balcão de lançamentos e peguei outros dois CDs porque como dizia um bilhete na parede "os fones só devem ser usados para ouvir os discos que não estão em promoção". E o disco do "Cuidado" custava cinco reais...
Não sou bom com botões e teclas. Incuo-me na categoria(?) dos que desligam celulares em plena fala e acionam o viva-voz nas horas mais inoportunas. Assim, quando fui ouvir o CD, devo ter apertado os botões errados pois acabei pulando as primeiras faixas e caí direto na quarta música, uma canção chamada "O puxador de tapetes" cuja interpretação me soava familiar. Busquei o encarte. A composição era de Finkler/Zambelli, que hoje sei se tratar de Gustavo e Jackson, a dupla criadora do "Cuidado". Quando li o nome do cantor, descobri a razão da minha familiaridade auditiva: "O puxador de tapetes" era interpretado, no disco, por Nei Lisboa.
Mas havia algo mais naquela música... Seria a presença do darbak, instrumento sobre o qual eu nunca ouvira falar? Sei lá. Só o que sei é que agora, depois de ter descoberto que o darbak é um elemento de percussão, típico da música oriental, ainda não consigo explicar muito bem a minha paixão por aquele CD de cinco pilas. O fato é que, de tempos em tempos, ponho-me a ouvir o "Cuidado que Mancha" a todo volume e saio pela casa cantando. Invariavelmente, ao final da audição, fico mais feliz.
No disco, há uma música chamada "Two Five" onde uma garota pede, insistentemente, ao namorado músico que ele cante um rock. O rapaz, um bossanovista convicto, tenta explicar que rock não é seu som. A guria teima e ele acaba tentando. Tudo o que consegue, porém, é um "padabararauirereriô" ao que a moçoila, furiosa, repele: "Isso não é rock, meu bem. Isso não é samba também. Isso não é nada, ou, pensando bem, isso é um insulto. Ironia, não!"
Pode ser que esteja aí, mascarado ou até mesmo inconsciente, o mistério que me fez fã do "Cuidado". O que Gustavo Fikler, Jackson Zambelli, Marcelo Delacroix, Adriana Marques, Sérgio Olivé, Jorge Cardoso, Jorge Matte e outras feras fazem neste disco dedicado a Nei Lisboa e Luis Tatit não é rock, nem samba. É mesmo inclassificável. É nada, portanto, como diz a guria do "Two Five".
Mas se puder, caro leitor, ouça. Ouça sem preconceito. Preste atenção em algumas frases como "...quanto tempo acreditei que não fraquejariam mais as minhas pernas magrelas, incertas? Tudo parece tão grande do chão... Não importa. Meu velho ponto de vista de volta.." ou ainda "...homem não chora. Palhaço também não..."
E depois de ouvir, responda sinceramente: não dá uma raiva danada gostar desse negócio que a gente não consegue dizer direito o que é? Sobre versos tão engraçados quanto requintadamente poéticos, os caras nos oferecem sons absolutamente inusitados que saem de uma mistura harmônica de gaitas, bandolins, trumpetes, serrotes, bumbos, martelos, ganzás, cavaquinhos e saxofones. Nada é convencional, nada é explícito. Tudo é sutil e, mesmo que pareça paradoxo, é tudo absolutamente popular. Mas cuidado: você pode gostar. E a mancha será tão indelével que você pode, como eu fiz, querer escrever em 2008 sobre um CD lançado em 1995.
Por João Manoel de Oliveira.
04/11/2008 | 15:35
A Viagem do Elefante, novo livro de Saramago

A épica viagem do elefante Salomão nasceu na imaginação do escritor português José Saramago em 1999, mas só tomou forma como livro no ano passado, quando ele esteve entre a vida e a morte. A Viagem do Elefante chegou nesta segunda-feira (3) às livrarias, em lançamento da Companhia das Letras.
Os leitores terão tempo para saborear a leitura até a chegada do autor ao Brasil, no final do mês, quando promove seu lançamento. No dia 27, Saramago participa de um encontro com os fãs no Sesc Pinheiros. Na mesma época, será homenageado pela Academia Brasileira de Letras, em cerimônia realizada no Rio de Janeiro. E, finalmente, cederá objetos e manuscritos para uma exposição a ser aberta no Instituto Tomie Ohtake.
Meses atrás, o próprio Saramago não conseguia imaginar que lançaria mundialmente o livro no Brasil. Ele sofreu uma grave doença respiratória, da qual temeu não escapar. "Escrevê-lo não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro", escreve Pilar del Río, com quem Saramago é casado.
O texto de Pilar figura no blog do escritor (http://blog.josesaramago.pt), no qual ele vem registrando suas impressões a respeito da recepção do livro e também de O Ensaio Sobre a Cegueira, versão cinematográfica dirigida por Fernando Meirelles. Pilar conta que, aos olhos do escritor, o livro de 262 páginas não lhe pareceu um romance — daí tratá-lo como conto.
A história se baseia em um fato verídico, ocorrido em 1551, quando dom João III, então rei de Portugal, decidiu presentear o arquiduque da Áustria com um elefante indiano. Organizou-se, então, uma comitiva formada por homens e bois que acompanhou o animal de Lisboa até seu destino final, Viena. E, como quase ninguém conhecia um elefante, sua passagem por vilas e aldeias provocava festa e espanto.
A partir desse fato inusitado, Saramago utiliza seu tradicional humor e pregação humanista para mostrar a habitualmente difícil relação do homem entre si e também com os animais. Uma solidariedade compassiva, como já observou Saramago.
A idéia de A Viagem do Elefante surgiu quando o escritor visitou a Áustria, há quase dez anos, e almoçou, por acaso, em um restaurante de Salzburgo chamado O Elefante. Na narrativa, Saramago uniu figuras históricas verdadeiras com personagem criados em sua imaginação.
"Estas são pessoas que os membros desta caravana encontram na sua viagem, e com quem partilham perplexidades, esforços e a harmoniosa alegria de um telhado sobre as suas cabeças", disse, em entrevista à imprensa espanhola.
Mesmo temendo não concluir o livro por causa do agravamento da doença, Saramago conta que não alterou a história original. "Os anos não passam em vão. Não foi um passeio no jardim. Algo do que vivi terá passado para o que escrevi. Mas, de qualquer forma, os elementos essenciais da história não mudaram", disse ele.
O autor revelou sua felicidade e alívio por ter concluído o trabalho. "Escrevi os meus três últimos livros no mais deplorável estado de saúde, que não é de todo o mais favorável para idéias felizes. Prefiro dizer: se tens que escrever, escreverás." Um entrevistador lhe pergunta: "Pode a literatura salvar a nossa vida?". E Saramago rebate: "Não como um medicamento, mas é uma das fontes mais ricas onde o espírito pode beber."
Leia abaixo trecho de Leia trecho de A Viagem do Elefante
Não há vento, porém a névoa parece mover-se em lentos turbilhões como se o próprio bóreas, em pessoa, a estivesse soprando desde o mais recôndito norte e dos gelos eternos. O que não está bem, confessemo-lo, é que, em situação tão delicada como esta, alguém se tenha posto aqui a puxar o lustro à prosa para sacar alguns reflexos poéticos sem pinta de originalidade. A esta hora os companheiros da caravana já deram com certeza pela falta do ausente, dois deles declararam-se voluntários para voltar atrás e salvar o desditoso náufrago, e isso seria muito de agradecer se não fosse a fama de poltrão que o iria acompanhar para o resto da vida, Imaginem, diria a voz pública, o tipo ali sentado, à espera de que aparecesse alguém a salvá-lo, há gente que não tem vergonha nenhuma. É verdade que tinha estado sentado, mas agora já se levantou e deu corajosamente o primeiro passo, a perna direita adiante, para esconjurar os malefícios do destino e dos seus poderosos aliados, a sorte e o acaso, a perna esquerda de repente duvidosa, e o caso não era para menos, pois o chão deixara de poder ver-se, como se uma nova maré de nevoeiro tivesse começado a subir. Ao terceiro passo já não consegue nem sequer ver as suas próprias mãos estendidas à frente, como para proteger o nariz do choque contra uma porta inesperada. Foi então que uma outra ideia se lhe apresentou, a de que o caminho fizesse curvas para um lado ou para o outro, e que o rumo que tomara, uma linha que não queria apenas ser recta, uma linha que queria também manter-se constante nessa direcção, acabasse por conduzi-lo a páramos onde a perdição do seu ser, tanto da alma como do corpo, estaria assegurada, neste último caso com consequências imediatas. E tudo isto, ó sorte mofina, sem um cão para lhe enxugar as lágrimas quando o grande momento chegasse. Ainda pensou em voltar para trás, pedir abrigo na aldeia até que o banco de nevoeiro se desfizesse por si mesmo, mas, perdido o sentido de orientação, confundidos os pontos cardeais como se estivesse num qualquer espaço exterior de que nada soubesse, não achou melhor resposta que sentar-se outra vez no chão e esperar que o destino, a casualidade, a sorte, qualquer deles ou todos juntos, trouxessem os abnegados voluntários ao minúsculo palmo de terra em que se encontrava, como uma ilha no mar oceano, sem comunicações. Com mais propriedade, uma agulha em palheiro. Ao cabo de três minutos, dormia. Estranho animal é este bicho homem, tão capaz de tremendas insónias por causa de uma insignificância como de dormir à perna solta na véspera da batalha. Assim sucedeu. Ferrou no sono, e é de crer que ainda hoje estaria a dormir se salomão não tivesse soltado, de repente, em qualquer parte do nevoeiro, um barrito atroador cujos ecos deveriam ter chegado às distantes margens do ganges. Aturdido pelo brusco despertar, não conseguiu discernir em que direcção poderia estar o emissor sonoro que decidira salvá-lo de um enregelamento fatal, ou pior ainda, de ser devorado pelos lobos, porque isto é terra de lobos, e um homem sozinho e desarmado não tem salvação ante uma alcateia ou um simples exemplar da espécie. A segunda chamada de salomão foi mais potente ainda que a primeira, começou por uma espécie de gorgolejo surdo nos abismos da garganta, como um rufar de tambores, a que imediatamente se sucedeu o clangor sincopado que forma o grito deste animal. O homem já vai atravessando a bruma como um cavaleiro disparado à carga, de lança em riste, enquanto mentalmente implora, Outra vez, salomão, por favor, outra vez. E salomão fez-lhe a vontade, soltou novo barrito, menos forte, como de simples confirmação, porque o náufrago que era já deixara de o ser, já vem chegando, aqui está o carro da intendência da cavalaria, não se lhe podem distinguir os pormenores porque as coisas e as pessoas são como borrões indistintos, outra ideia se nos ocorreu agora, bastante mais incómoda, suponhamos que este nevoeiro é dos que corroem as peles, a da gente, a dos cavalos, a do próprio elefante, apesar de grossa, que não há tigre que lhe meta o dente, os nevoeiros não são todos iguais, um dia se gritará gás, e ai de quem não levar na cabeça uma celada bem ajustada. A um soldado que passa, levando o cavalo pela reata, o náufrago pergunta-lhe se os voluntários já regressaram da missão de salvamento e resgate, e ele respondeu à interpelação com um olhar desconfiado, como se estivesse diante de um provocador, que havê-los já os havia em abundância no século dezasseis, basta consultar os arquivos da inquisição, e responde, secamente, Onde é que você foi buscar essas fantasias, aqui não houve nenhum pedido de voluntários, com um nevoeiro destes a única atitude sensata foi a que tomámos, manter-nos juntos até que ele decidisse por si mesmo levantar-se, aliás, pedir voluntários não é muito do estilo do comandante, em geral limita-se a apontar tu, tu e tu, vocês, em frente, marche, o comandante diz que, heróis, heróis, ou vamos sê-lo todos, ou ninguém. Para tornar mais clara a vontade de acabar a conversa, o soldado içou-se rapidamente para cima do cavalo, disse até logo e desapareceu no nevoeiro. Não ia satisfeito consigo mesmo. Tinha dado explicações que ninguém lhe havia pedido, feito comentários para que não estava autorizado. No entanto, tranquilizava-o o facto de que o homem, embora não parecesse ter o físico adequado, deveria pertencer, outra possibilidade não cabia, pelo menos, ao grupo daqueles que haviam sido contratados para ajudar a empurrar e puxar os carros de bois nos passos difíceis, gente de poucos falares e, em princípio, escassíssima imaginação. Em princípio, diga-se, porque ao homem perdido no nevoeiro imaginação foi o que pareceu não lhe ter faltado, haja vista a ligeireza com que tirou do nada, do não acontecido, os voluntários que deveriam ter ido salvá-lo. Felizmente para a sua credibilidade pública, o elefante é outra coisa. Grande, enorme, barrigudo, com uma voz de estarrecer os tímidos e uma tromba como não a tem nenhum outro animal da criação, o elefante nunca poderia ser produto de uma imaginação, por muito fértil e dada ao risco que fosse. O elefante, simplesmente, ou existiria, ou não existiria. É portanto hora de ir visitá-lo, hora de lhe agradecer a energia com que usou a salvadora trombeta que deus lhe deu, se este sítio fosse o vale de josafá teriam ressuscitado os mortos, mas sendo apenas o que é, um pedaço bruto de terra portuguesa afogado pela névoa onde alguém (quem) esteve a ponto de morrer de frio e abandono, diremos, para não perder de todo a trabalhosa comparação em que nos metemos, que há ressurreições tão bem administradas que chega a ser possível executá-las antes do passamento do próprio sujeito. Foi como se o elefante tivesse pensado, Aquele pobre diabo vai morrer, vou ressuscitá-lo. E aqui temos o pobre diabo desfazendo-se em agradecimentos, em juras de gratidão para toda a vida, até que o cornaca se decidiu a perguntar, Que foi que o elefante lhe fez para que você lhe esteja tão agradecido, Se não fosse ele, eu teria morrido de frio ou teria sido comido pelos lobos, E como conseguiu ele isso, se não saiu daqui desde que acordou, Não precisou de sair daqui, bastou-lhe soprar na sua trombeta, eu estava perdido no nevoeiro e foi a sua voz que me salvou, Se alguém pode falar das obras e feitos de salomão, sou eu, que para isso sou o seu cornaca, portanto não venha para cá com essa treta de ter ouvido um barrito, Um barrito, não, os barritos que estas orelhas que a terra há-de comer ouviram foram três. O cornaca pensou, Este fulano está doido varrido, variou-se-lhe a cabeça com a febre do nevoeiro, foi o mais certo, tem-se ouvido falar de casos assim, Depois, em voz alta, Para não estarmos aqui a discutir, barrito sim, barrito não, barrito talvez, pergunte você a esses homens que aí vêm se ouviram alguma coisa. Os homens, três vultos cujos difusos contornos pareciam oscilar e tremer a cada passo, davam imediata vontade de perguntar, Onde é que vocês querem ir com semelhante tempo. Sabemos que não era esta a pergunta que o maníaco dos barritos lhes fazia neste momento e sabemos a resposta que lhe estavam a dar. Também não sabemos se algumas destas coisas estão relacionadas umas com as outras, e quais, e como. O certo é que o sol, como uma imensa vassoura luminosa, rompeu de repente o nevoeiro e empurrou-o para longe. A paisagem fez-se visível no que sempre havia sido, pedras, árvores, barrancos, montanhas. Os três homens já não estão aqui. O cornaca abre a boca para falar, mas torna a fechá-la. O maníaco dos barritos começou a perder consistência e volume, a encolher-se, tornou-se meio redondo, transparente como uma bola de sabão, se é que os péssimos sabões que se fabricam neste tempo são capazes de formar aquele maravilhas cristalinas que alguém teve o génio de inventar, e de repente desapareceu da vista. Fez plof e sumiu-se. Há onomatopeias providenciais. Imagine-se que tínhamos de descrever o processo de sumição do sujeito com todos os pormenores. Seriam precisas, pelo menos, dez páginas. Plof.
Por Agência Estado.
22/09/2008 | 11:10

O COMEÇO DO MARXISMO NA AMÉRICA LATINA
Um socialismo inspirado nas teorias de Karl Marx existia na América Latina desde o final do Século XIX. Mesmo no Brasil, nos primeiros anos do Século XX, o paulista Silvério Fontes e alguns poucos seguidores lançam um manifesto socialista, com nítida influência do marxismo. Mas somente há 80 anos é publicada a primeira obra que legitimamente pode se reivindicar das teses de Marx. Trata-se de “Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana”, de José Carlos Mariátegui, livro agora reeditado no Brasil pela Editora Expressão Popular. Pela primeira vez em nosso continente, as descobertas teóricas de Marx eram aplicadas de forma original e criativa para a interpretação de uma realidade concreta na América Latina, o Peru.
Mariátegui parte da posição de que a questão nacional peruana está diretamente ligada ao problema indígena, negando que este seja secundário. Para ele a questão indígena estava no fulcro das questões econômicas e sociais e uma postura socialista deveria partir disso para uma análise materialista da formação social peruana. Obviamente, as análises de Mariátegui chocavam-se com as posições oficiais da Internacional Comunista, cujas teses classificavam em bloco os “países coloniais, semicoloniais e dependentes”, entre os quais se colocavam todas nações latino-americanas, onde, como na África e na Ásia, deveriam ocorrer “revoluções nacionais-burguesas”, que eliminariam os resquicios feudais, promovendo, portanto, o desenvolvimento capitalista, única forma de abrir o caminho para o socialismo. Em outras palavras, a IC, cada vez mais dogmática e stalinista, queria no chamado “Terceiro Mundo” a repetição das revoluções burguesas e democráticas que sacudiram a Europa nos séculos dezessete e dezoito. Assim, para a IC o problema indígena era inteiramente secundário, enquanto para Mariátegui se constituía na questão central para a resolução da conservadora estrutura agrária do Peru. Mariátegui morreu antes da completa stalinização da IC e assim permaneceu até o fim da vida como a principal referência teórica do PC peruano, que após a sua morte rendeu-se inteiramente às teses dogmáticas da IC. A realidade contemporânea na América Latina, particularmente na Bolívia e na Venezuela mas também no Peru e no Equador mostra de forma prática a grande atualidade das teses de Mariátegui e revela um pensamento vivo e brilhante.
Problema semelhante ocorreria no Brasil, alguns anos depois, com a obra de Caio Prado Junior em relação à formação histórica de nosso país. Caio Prado sempre negou a existência do feudalismo no Brasil, ao contrário das teses oficiais de seu partido, o Partido Comunista Brasileiro. A rica obra de Caio Prado nunca mereceu do PCB um estudo sério e foi desprezada durante quase toda a existência do Partidão. Apenas com a crise final do stalinismo, alguns velhos comunistas compreenderam a riqueza e a originalidade do trabalho de Caio Prado Junior, que, assim, como Mariátegui teve seu trabalho plenamente reconhecido, fora das universidades, somente após a sua morte.
Por Luiz Pilla Vares.
01/09/2008 | 10:25

MARX E SUA PRESENÇA
A Editora Vozes lançou um pequeno, porém brilhante livro: “Compreender Marx”, de Denis Collin. Trata-se de um retorno ao velho Marx, uma efetiva tentativa de compreende-lo por dentro de seu pensamento, da formação de uma teoria crítica que tanta discussão causou durante todo o transcorrer do Século XX, e as possibilidades que uma leitura de Marx ainda oferecem para os tempos atuais. “Compreender Marx” está muito longe de ser uma obra dogmática ou saudosista. Ao contrário, faz uma leitura extremamente original do pensador alemão, analisando questões polêmicas que nunca foram resolvidas por aqueles que afirmaram perante a história da cultura e da política que era os seus seguidores.
Collin enfrenta com audácia e erudição, mas em linguagem acessível, problemas cruciais, como, por exemplo, a teoria das classes sociais, a questão do Estado e do político, e a pertinência das teorias de Marx para os tempos atuais. Ele não foi o primeiro a afirmar isso, mas em seu livro a questão assume uma clareza e uma profundidade surpreendentes: não há em Marx uma teoria das classes sociais, nem mesmo uma definição precisa do proletariado. Assim, ele afirma, por exemplo, que “uma classe social não se define somente por uma situação objetiva numa certa estrutura social. Uma classe social só pode formar-se num “comércio mútuo” de cada um de seus membros, comércio no qual aqueles que participam de uma mesma condição podem tomar consciência da comunidade de seus interesses”. E, para enfatizar a posição flexível de Marx em relação às classes sociais, cita várias vezes as duas mais brilhantes obras políticas de Marx, “O 18 Brumário de Luis Bonaparte” e “As Lutas de Classe na França”.
Desta forma, sem um “vivido” comum de todos os indivíduos que compartilham a mesma condição social, não há, propriamente falando, classe social. Portanto, para que os indivíduos formem uma classe é preciso que existam entre eles laços objetivos suficientemente fortes. “Esses laços objetivos são a condição da formação de laços subjetivos: uma classe social é, pois, uma entidade ideal que supõe indivíduos que se reconheçam a si mesmos, subjetivamente, como tendo uma pertença comum de classe”. Desta forma, para Marx - e esta é uma interpretação extremamente original de Collin - “a situação de classe é, primeiro, uma inscrição no corpo de cada indivíduo, na maneira como ele percebe o mundo”. Assim, “a pertença à classe operária é um certo gênero de vivido subjetivo”.
Não menos instigante é a reflexão que o autor faz a respeito da posição teórica de Marx diante do Estado, que não é meramente uma ferramenta funcional ao serviço de certo tipo de relações sociais: o Estado “é também um terreno e uma aposta entre as classes definidas por essas relações”. E nesse capítulo, Collin coteja certas opiniões marxianas com pensadores contemporâneos como Habermas, Jon Elster ou Rawls. Para Marx, na verdade, desde que as lutas de classe questionam a estabilidade política e, portanto, a dominação social da classe capitalista, o Estado se torna de certa forma autônomo, eleva-se acima de todas as classes, inclusive a classe dominante. E voltamos ao exemplo do bonapartismo, mas também dos fascismos da primeira metade do Século XX.
Não menos atraente neste pequeno livro é a comparação – e a distância – que Collin faz entre a concepção original marxiana e as teorias que foram elaboradas em seu nome. Em suma, estamos diante de um Marx pensador crítico, ferozmente crítico, e não de um criador de ideologia. Finalizando, Marx é ainda hoje irrenunciável e permanece como o crítico mais fecundo do Modo de Produção Capitalista, que, se chegar ao seu desenvolvimento completo, submete à classe dominante não somente os operários, mas também a própria vida.
Por Luiz Pilla Vares.
11/08/2008 | 17:38

O POETA DA REVOLUÇÃO
O Brasil tem excelentes traduções da obra poética de Vladimir Maiakovski, importante futurista russo, que se tornou um ícone da arte do Século XX. Na verdade, os seus poemas traduzidos para o português por Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos (ed. Perspectiva), e a “Antologia Poética” de E. Carrera Guerra (ed. Leitura) estão praticamente esgotadas. Aliás ambas merecem reedições para o jovem leitor brasileiro. Faltava, porém, uma boa biografia do poeta russo que desse uma idéia da vida agitada de Maiakovski. Finalmente, agora, acaba de sair “Maiakovski: O Poeta da Revolução”(ed. Record, 559 páginas), de Aleksandr Mikhailov, que dá perfeitamente conta da existência conturbada e trágica do artista revolucionário (revoluci0nário tanto em suas ousadas e inovadoras criações estática, como em suas opções políticas).
De certa forma a vida adulta de Maiakovski se confunde com os caminhos e a decadência da revolução russa. Sua militância comunista está ligada às imensas esperanças que a Revolução despertou em toda uma geração de intelectuais russos, na literatura (particularmente na poesia), nas artes plásticas, no teatro, no cinema (Maiakovski sintetiza bem este momento único: ele foi poeta, desenhista, autor de teatro e ator de cinema). Raras vezes na história, revolução e inovação estética caminharam juntas de forma tão íntima como na Rússia Revolucionária. Os magníficos posters de Maiakovsky sobre a Revolução são até hoje objetos de colecionadores e volta e meia são expostos em galerias de artes e universidades. Iconoclasta, tanto em sua vida pessoal como em suas criações, o poeta adorava Lênin, a quem “mostra humano”, mas, paradoxalmente, “livre de todas as fraquezas, numa auréola de santidade”.
A amargura e a desilusão de Maiakovski começam a se revelar progressivamente, com o recuo das promessas revolucionárias e a crescente burocratização do partido e da vida política em geral na Rússia. Os ideais libertários cediam lugar cada vez mais rapidamente para o domínio burocrático que vai se concretizar no regime stalinista. É nesse período que ele escreve a sua peça satírica “O Percevejo”, uma impiedosa e desiludida crítica à burocracia, que contrasta radicalmente com a sua obra juvenil, cheia de otimismo e esperança. Maiakovski não conseguiria sobreviver ao lado de um regime que se tornava cada vez mais a negação de seus sonhos comunistas. Nem a sua arte revolucionária poderia existir num ambiente de progressivo conformismo e de restauração de academicismo medíocre que iria culminar na pobreza filosófica e estética do chamado “realismo socialista”. Na verdade, a Rússia stalinista era estreita demais para que nela vivesse o gigante Maiakovski. Em 1930, ele se suicida, podemos dizer por absoluta incompatibilidade entre o seu gênio a vida na Rússia sob Stálin.
Por Luiz Pilla Vares.
21/07/2008 | 14:55

O último número da edição brasileira de “Le Monde Diplomatique” está excelente. Mas dois artigos chamam especialmente a atenção, ambos sobre a situação atual de Cuba, “Sair do caos sem cair na lei da selva”, de Aurélio Alonso, e “Do Período Especial à ascensão de Raúl”, de Stephen Wilkinson, um pesquisador do Institute for the Study of Cuba, da Metropolitan University de Londres. Os dois textos são extremamente interessantes pela clareza, objetividade e franqueza na abordagem dos problemas vividos pela pequena e valente ilha do Caribe, que se tornou o símbolo do socialismo e da resistência ao imperialismo norte-americano. Nenhum dos artigos pretendem glamourizar a situação cubana, nem muito menos esconder os problemas enfrentados pelo país de Fidel Castro. Ao contrário, não os minimizam e expõem claramente e sem rodeios a sua gravidade.
Aurélio Alonso afirma, por exemplo, que “no plano político, o modelo não foi capaz de articular a democracia participativa, ou seja, a institucionalidade que assegura o exercício de um verdadeiro poder popular. E a derrocada soviética demonstrou que o socialismo não pode existir sem democracia (o capitalismo sim)”. Alonso vai fundo no drama cubano, sem concessões, mas realça as conquistas efetivas do socialismo, não apenas em áreas reconhecidas internacionalmente, como a saúde e a educação, mas afirma que “em Cuba, conseguiu-se manter o sentido da solidariedade como um valor essencial, e é nesse plano que o país se distanciou mais da deterioração ética que atingiu o bloco do Leste” . Mas, adverte, “também dentro da sociedade cubana, a crise do paradigma sofrida a partir do desmonte da União Soviética e as complexidades dos anos 1990 distorcem sensivelmente esses valores”.
Aurélio Alonso e Stephen Wilkinson têm olhares diferentes sobre os problemas cubanos, mas ambos concordam num ponto decisivo: para a direção política de Cuba, embora reformas profundas sejam necessárias e até mesmo vitais o rumo seguido pelos países do Leste europeu após a debacle está descartado; ou seja, não acontecerá um retorno à “democracia” como um atraente pacote para o estabelecimento da lei da selva que caracteriza a sociedade capitalista. A democracia necessária não será a que os Estados Unidos pretendem para Cuba, mas um regime que aprofunde radicalmente a democracia participativa e amplie significativamente o espaço das liberdades públicas ou, simplesmente, da liberdade. Aliás, o texto de Aurélio Alonso já se constituiu um exemplo deste caminho que começou a ser trilhado em Cuba contemporânea: afinal, ele é subdiretor da famosa revista editada em Havana, “Casa de Las Américas”.
Por Luiz Pilla Vares.
07/07/2008 | 13:38

Finalmente um grande livro tem como objetivo central o futebol. Era inacreditável que até hoje não houvesse sido editado no Brasil um estudo sério e profundo sobre este esporte que arrebata as paixões de milhões de pessoas no país inteiro; um estudo que fosse além das reportagens e dos textos centrados em aspectos parciais e localizados. Pois bem, este livro que faltava surgiu e, talvez, tivesse sido bom esperar tanto tempo para que pudéssemos ler a obra de José Miguel Wisnik “Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil” (Ed. Companhia das Letras). Trata-se de um livro sem concessões, que “dribla” (o termo é mais do que apropriado no caso) a tentação das frases fáceis e rápidas e mergulha com surpreendente profundidade no campo de batalha que constituiu a formação do futebol brasileiro.
Na realidade, Wisnik sai dos papos de boteco, das matérias jornalísticas e das conversas de café e traz o futebol para um campo que até então lhe era adverso: o debate universitário. Com “Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil”, o esporte das multidões vence a barreira quase intransponível da Academia. E, mais importante, inscreve definitivamente o futebol de Zizinho e Pelé, Garrincha e Ronaldinho, das torcidas enlouquecidas como um elemento essencial da cultura brasileira.
Nesta obra densa e erudita, Wisnik deixa transparecer claramente as influências de Gilberto Freire, sem dúvida um contraponto ao marxismo de grande parte dos professores da USP. Mas não se trata de uma obra antimarxista, pois ele propõe, em breve passagem, um diálogo com o clássico ensaio de Antônio Cândido sobre a “dialética da malandragem”. E investe também contra a “cultura do tudo ou nada” (ou o Brasil poderá ser uma maravilha, um enorme paraíso tropical, ou não tem futuro algum, será sempre “um fim de mundo”). A proposta de Wisnik é o abandono desta fórmula simplista de que “o país é ou receita de felicidade ou fracasso sem saída – ou total ou nulo, ou panacéia ou engodo, ou paradisíaco ou infernal”. Disse bem o crítico da Folha de S.Paulo Fernando de Barros e Silva: “Mesmo sob o risco de simplificação, talvez se possa ver neste apelo final e resignado ao bom senso algo como uma imagem refratada do realismo da era Lula”.
De qualquer forma, repita-se, era uma obra que faltava para inserir de forma definitiva o futebol na cultura brasileira. Finalmente, depois de várias década, um intelectual respeitado dedica parte de seu saber a um estudo profundo sobre a grande paixão das multidões brasileiras. Espera-se, porém, que tudo não se esgote neste “pontapé inicial”, mas, sim que o grande livro de José Miguel Wisnik venha a ser, no futuro, a “preliminar” de outros grandes estudos culturais deste campo sem goleiras que é a cultura escondida do futebol brasileiro.
Por Luiz Pilla Vares.
04/07/2008 | 14:05
Eduardo Galeano, as palavras e a alma da América Latina

CIDADÃO DO MERCOSUL
Eduardo Galeano, as palavras e a alma da América Latina
Dezenas de personalidades da política e da cultura latino-americana estiveram nesta quinta-feira, em Montevidéu, para participar da homenagem a Eduardo Galeano, que recebeu o título de primeiro Cidadão Ilustre do Mercosul. Em sua fala de agradecimento, Galeano defendeu a unidade dos povos latino-americanos: "só existindo juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos treinou para o medo, a resignação e a solidão".
Redação - Carta Maior
O escritor uruguaio Eduardo Galeano foi declarado hoje o primeiro Cidadão Ilustre do Mercosul, em reconhecimento à sua contribuição "à cultura, à identidade latino-americana e à integração regional". A homenagem ocorreu em Montevidéu, em um ato público que reuniu personalidades da cultura e da política latino-americana. O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, viajou a Montevidéu para participar da cerimônia. Em sua fala de agradecimento, intitulada "Collar de historias", Galeano disse que o primeiro cidadão ilustre da região foi José Artigas e fez uma menção especial a três brasileiros: Aleijadinho, Garrincha e Oscar Niemeyer. Ele disse:
"Nossa região é o reino dos paradoxos.
Vejamos o caso do Brasil.
Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas formosuras da arte da época colonial.
Paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a desdita, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;
E paradoxalmente, Oscar Niemeyer já cumpriu cem anos de idade e é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros".
E defendeu a unidade dos povos latino-americanos:
"Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas só existindo juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos treinou para o medo, a resignação e a solidão e que a cada dia nos ensina a não gostarmos de nós mesmos, a cuspirmos no espelho, a copiar ao invés de criar".
Carta Maior publica a seguir, na íntegra, a fala de Galeano
Colar de histórias
Nossa região é o reino dos paradoxos.
Tomemos o caso do Brasil, por exemplo:
paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;
paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e a poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;
e, paradoxalmente, Oscar Niemeyer, que já completou cem anos de idade, é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.
***
Ou, por exemplo, a Bolívia: em 1978, cinco mulheres derrubaram uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda a Bolívia zombou delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda a Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.
Eu conheci uma dessas cinco obstinadas, Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela levantou e fez todos calarem a boca.
— Quero dizer só uma coisinha —disse—. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e nós carregamos ele dentro.
E, anos depois, reencontrei Domitila em Estocolmo. Havia sido expulsa da Bolívia e ela tinha marchado para o exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, e admirava a liberdade deles; mas tinha pena deles, tão sozinhos que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E dava-lhes conselhos:
— Não sejam bobos –dizia-. Fiquem juntos. Nós, lá na Bolívia, ficamos juntos. Mesmo que seja para brigar, ficamos juntos.
***
E como tinha razão.
Porque, digo eu: existem os dentes, se não ficarem juntos na boca? Existem os dedos, se não ficarem juntos na mão?
Estarmos juntos: e não só para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor dos nossos direitos. Bem juntos estão, mesmo que de vez em quando simulem brigas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os outros. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Bem pouquinho tempo atrás, por exemplo, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo de paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta no nariz dos invadidos, quando eles querem retribuir a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a sermos comidos e a viver com medo.
Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos amestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não gostar de nós mesmos, a cuspir no espelho, a copiar em vez de criar.
***
Ao longo da primeira metade do século dezenove, um venezuelano chamado Simón Rodríguez caminhou pelos caminhos da nossa América, no lombo de uma mula, desafiando os novos donos do poder:
— Vocês —clamava o sr. Simón-, vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o mais importante, que é a originalidade?
Paradoxalmente, não era ouvido por ninguém este homem que tanto merecia ser ouvido. Paradoxalmente, chamavam-no louco, porque cometia a sensatez de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça, porque cometia a sensatez de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que a quem não sabe, qualquer um engana e a quem não tem, qualquer um compra, e porque cometia a sensatez de duvidar da independência dos nossos países recém-nascidos:
— Não somos donos de nós mesmos —dizia. Somos independentes, mas não somos livres.
***
Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi, paradoxalmente, assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia nem um centavo para ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.
Paradoxalmente, depois de cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que os nomeou, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani falam ainda hoje os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.
Em guarani, ñe´é significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.
Se dou minha palavra, estou me dando.
***
Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu-se.
Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio de governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:
— Daqui eu não saio vivo.
Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por vários presidentes que depois saíram vivos, para continuar pronunciando-a. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.
Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile chama-se, ainda, Onze de Setembro. E não se chama assim pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Chama-se assim em homenagem aos verdugos da democracia no Chile. Com todo o respeito por esse país que amo, atrevo-me a perguntar, por simples senso comum: não seria hora de mudar-lhe o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?
***
E atravessando a cordilheira, pergunto-me: por que será que o Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?
Paradoxalmente, quanto mais é manipulado, quanto mais é traído, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.
E pergunto-me: Não será porque ele dizia o que pensava e fazia o que dizia? Não será por isso que ele continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito rara vez se encontram, e quando se encontram não se cumprimentam, porque não se reconhecem?
***
Os mapas da alma não têm fronteiras e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero culminar este viagenzinha pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui pertinho.
Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. É tão perigoso que a ditadura militar do Uruguai não conseguiu encontrar nem uma única frase sua que não fosse subversiva e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que erigiu para ofender sua memória.
A ele, que se recusou a aceitar que nossa pátria grande se quebrasse em pedaços; a ele, que se recusou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico este título, que recebo em seu nome.
E termino com palavras que escrevi para ele algum tempo atrás:
1820, Paso del Boquerón. Sem virar a cabeça, você afunda no exílio. Estou vendo, estou vendo você: desliza o Paraná com preguiça de lagarto e ao longe se afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você não diz adeus à sua terra. Ela não iria acreditar. Ou talvez você não sabe, ainda, que está indo para sempre.
Acinzenta-se a paisagem. Você está indo, vencido, e sua terra fica sem alento. Irão devolver-lhe a respiração os filhos que nasçam dela, os amantes que a ela chegarem? Aqueles que dessa terra brotem, aqueles que nela entrem, far-se-ão dignos de tristeza tão funda?
Sua terra. Nossa terra do sul. Você será muito necessário para esta terra, Dom José. Cada vez que os cobiçosos a firam e humilhem, cada vez que os tolos acreditem que está muda ou estéril, você fará falta. Porque você, Dom José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela já disse.
Tradução: Naila Freitas / Verso tradutores
Por Agência Carta Maior.
16/06/2008 | 12:39

Com textos de Tarso Genro, Giuseppe Cocco, Carlos Maria Cárcova e Juarez Guimarães, a editora gaúcha L&PM acaba de lançar nas livrarias de todo o Brasil a obra “O Mundo Real – O Socialismo na Era Pós-Neoliberal”, com apresentação do ex-presidente português Mário Soares e uma introdução do atual ministro brasileiro da Educação, Fernando Haddad. Como se pode deduzir pelo título, o conteúdo do livro está centrado em temas atuais, com o enfoque principal na necessidade fundamental da renovação do pensamento da esquerda no Século XXI.
Os nomes e as biografias dos autores dos textos que integram o volume são certamente a garantia de uma reflexão importante para todos os que se preocupam com os destinos da sociedade neste novo século. Com efeito, com o fracasso das ilusões neoliberais que se apresentaram como a grande panacéia após a queda em poucos anos dos regimes burocráticos do Leste europeu, impropriamente chamados de “socialismo real”, verifica-se na esquerda mundial uma saudável perda de certezas e, portanto, a necessidade crescente de novas reflexões sobre a realidade contemporânea e a busca de novos paradigmas que sirvam de base teórica para uma ação política efetiva que sirva de alternativa para a sociedade sem rumo que vemos diante de nós.
“O Mundo Real – O Socialismo na Era Pós-Neoliberal” é uma demonstração inequívoca de que a tão necessária quanto saudável reflexão já está em curso e resta-nos esperar que em sua esteira venham outras obras na busca dos caminhos alternativos. É óbvio, porém, que esta retomada de um pensamento de esquerda no mundo atual não pode iniciar do zero, desconhecendo as grandes idéias e as lutas do passado. É, sim, preciso retoma-las, como agora se faz em relação ao maio de 1968. Mas sem nenhuma ilusão de que é possível repeti-las. A História nunca recua. Uma vez superada uma era, acumula-se o conhecimento, reflete-se sobre as ações que a marcaram e abre-se, então, uma nova estrada com novos conhecimentos, que ainda estão em seus estágios iniciais nesta primeira década do Século XXI.
O livro recém lançado pela L&PM é, certamente, uma contribuição para este período e um incentivo para que outras obras iluminem os longos caminhos que ainda teremos de percorrer, uma estrada sem retas, o que significa a negação das verdades absolutas, a retomada da frase preferida de Karl Marx e tão incrivelmente esquecida pela grande maioria daqueles que se proclamavam como seus herdeiros: “de omnibus dubitandur” (“deve-se duvidar de tudo”). Nunca como hoje foi tão importante a afirmação de Hegel de que “a coruja de Minerva só alça vôo ao cair da tarde”.
Por Luiz Pilla Vares.
02/06/2008 | 18:51

Várias vezes já o declararam morto. E ele sempre ressurge. Várias vezes proclamaram seu fracasso, associando-o de maneira simplista às teorias dogmáticas que presidiam o agônico “socialismo real”, denominação completamente imprópria para regimes que nada tinham de socialismo, esvaziando, assim, a teoria crítica permanente que envolve toda a obra de Karl Marx. No entanto, por ironia da história, foi justamente pela libertação das amarras e limitações brutais do stalinismo e do “socialismo real” que Marx aparece mais vivo do que nunca, extremamente atual, neste início do Século XXI. Talvez o filósofo alemão seja mesmo o único pensador que nos legou um instrumental crítico insuperável para a análise das contradições do regime capitalista, contradições estas que não se atenuaram desde que Marx escreveu sua obra prima, “O Capital”, mas, antes, se agravaram e cada vez mais tornam-se insuportáveis para a grande maioria da humanidade. É claro, entretanto, que a leitura atual de Karl Marx deverá ser nossa contemporânea, uma leitura que supõe atualização e crítica a algumas – e apenas algumas – de suas formulações que não resistiram ao tempo, aliás como em toda as obras dos pensadores clássicos. E Marx já é um clássico.
Por isso não é de estranhar que tantos livros sobre ele e sua obra tenham sido editados nos últimos anos. E o Brasil não fica á margem desta “recuperação” de Marx. Para citar apenas alguns autores editados em português: o economista argelino Jacques Attali, o grande filósofo húngaro Georgy Lukács, numa coletânea de textos organizada pelo professor Carlos Nélson Coutinho, e mesmo um liberal, inimigo do marxismo e sério estudioso de Marx, Raymond Aron, com sua importante obra, “O Marxismo de Marx”.
O mais recente livro desta nova “onda” marxiana é a obra “Incontornável Marx” (408 págs.), organizada por Jorge Nóvoa e publicada pela editora da UFBA, com textos de intelectuais reconhecidos internacionalmente como Michael Löwy. Louis Gill e François Chesnais que, em 15 artigos, defendem a permanência e a atualidade das idéias e dos conceitos de Karl Marx, numa leitura despreconceituosa e contemporânea, capaz de enriquecer substancialmente o debate e o estudo acerca do grande pensador alemão do Século XIX. É leitura fundamental não apenas para filósofos e economistas, mas, talvez, principalmente para aqueles que lidam com as questões políticas e sociais no cotidiano brasileiro do Século XXI.
Por Luiz Pilla Vares.
19/05/2008 | 11:54

Zélia Gattai morreu, aos 91 anos, no sábado, 17, em Salvador. Foi o fim de uma vida intimamente ligada à cultura e aos movimentos sociais no Brasil. Filha de imigrantes italianos, Zélia nasceu em São Paulo, em 2 de julho de 1916, mas se tornou baiana “por merecimento”. Ela foi a companheira de toda a vida do grande escritor Jorge Amado, mas sempre teve uma personalidade marcante, apesar de publicar seu primeiro livro aos 63 anos, em 1979, “Anarquistas Graças a Deus”, suas memórias da vida em São Paulo com os pais, os italianos Angelina e Ernesto Gattai. Alberto da Costa e Silva, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, afirma que “ela foi uma das grandes memorialistas do Brasil no Século XX, num século pródigo de memorialistas. Foi uma memorialista não só de sua história, mas da história de Jorge Amado e de um longo período do século passado”.
Mas Zélia Gattai, que poderia ter vivido à sombra de seu companheiro, não foi a autora de um único livro. Além de “Anarquistas Graças a Deus”, Zélia se destacou também na literatura infantil e infanto-juvenil, como “Pipistrelo das Mil Cores”, “O Segredo da Rua 18”, “Jonas e A Sereia”, e em outras obras de memórias: “Um Chapéu para Viagem”, “Senhora Dona do Baile”, “Jardim de Inverno”, “A Casa do Rio Vermelho, “Cittá di Roma”, “Códigos de Família” e “Um Baiano Romântico e Sensual”. Foi, também, uma excelente fotógrafa, ofício que aprendeu quando ela e Jorge Amado estavam exilados na Tchecoslováquia. A ela devemos o registro em imagens do imortal escritor baiano e o livro “Reportagem Incompleta”.
A eleição de Zélia para a ABL, criticada por alguns, não foi um absurdo. Ela tinha méritos e sua obra foi traduzida para o francês, italiano, russo, espanhol. “Anarquistas Graças a Deus” foi adaptado para a televisão e “Um Chapéu para Viagem” para o teatro. Na França, recebeu o título de “Cidadã de Honra da Comuna de Mirabeau”, em 1985, e a “Comenda de Arts e de Lettres” do governo francês, em 1998. Recebeu, ainda, no grau de comendadora, as ordens do Mérito da Bahia, em 1994, e, em Portugal, 1996, do Infante Dom Henrique.
Entretanto, muito mais fascinante do que todos estes títulos é a sua vida com o companheiro de sempre Jorge Amado. Foram para o exílio, depois que o Partido Comunista caiu na ilegalidade em 1948. Viajaram por vários anos pela Europa, mas nunca deixaram de ser brasileiros, a obra de ambos que o diga: poucos livros são tão brasileiros como os de Jorge e Zélia.
O Presidente Lula disse que “foi com pesar que recebi a notícia da morte da escritora Zélia Gattai. Filha de imigrantes italianos, nascida em São Paulo e baiana de coração, Zélia foi um símbolo da força, da doçura e perseverança da mulher brasileira. Uma companheira de todas as horas para Jorge Amado”.
Com a morte de Zélia, surge um vazio na Bahia e no Brasil.
Foto: Fundação Jorge Amado
Por Luiz Pilla Vares.
15/05/2008 | 16:44

O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60
O livro do jornalista e escritor paquistanês traça um panorama fundamental para a compreensão da avalanche de protestos que tomou conta do mundo durante o período. Tariq Ali viveu os anos 1960 intensamente, participando de acontecimentos políticos na Europa, na Ásia e nas Américas.
A década de 1960 – e, dentro dela, o explosivo ano de 1968 – ainda hoje é referência em termos de mobilização da juventude, utopia, revolução de costumes e liberação da mulher. Há quarenta anos, jovens do mundo todo se manifestavam contra a Guerra do Vietnã e transformavam as relações pessoais estabelecidas pela moral conservadora. Em todos os cantos, lutavam contra o autoritarismo e a repressão com as armas que possuíam, questionando estruturas sociais e de poder por meio da arte, da música e do comportamento. Se esses anos de luta não conseguiram mudar o mundo como pretendiam seus protagonistas, com certeza imprimiram transformações significativas.
O escritor paquistanês Tariq Ali viveu os anos 1960 intensamente, participando de acontecimentos políticos na Europa, na Ásia e nas Américas. Sua trajetória está relacionada aos episódios mais relevantes da década e é relatada em O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60. O livro traça um panorama fundamental para a compreensão da avalanche de protestos que tomou conta do mundo durante o período.
A edição original da obra é de 1987, jamais publicada no Brasil. A Boitempo se baseou na versão de 2005, revista e ampliada pelo autor. Tariq Ali preferiu desconsiderar críticas ao texto original sob o argumento de que “não se deve ajustar a História às necessidades do presente”. Partindo desse ângulo, o livro retrata o que autor chama de “tempos de esperança”, com sua diversidade e riqueza cultural e política. A versão ampliada conta ainda com uma entrevista com John Lennon e Yoko Ono feita por Tariq Ali, em 1971.
O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60 nos leva de Paris a Praga, passando por Hanói e Bolívia, com direito a encontros com figuras como Malcolm X, Bertrand Russell, Chu En-lai, Edward Said e Marlon Brando. O livro captura em detalhes o clima e a energia dos anos 1960, algo inesquecível mesmo para quem considera perda de tempo os acontecimentos do período. O sociólogo Emir Sader, responsável pela orelha do livro, sintetiza o impacto do texto: trata-se de “um grande elogio à militância política, que mostra a descoberta da rebeldia. Não se trata apenas de um livro de memórias, mas de uma introdução à política revolucionária, ao que significa ser militante”.
Sobre o autor
Tariq Ali é jornalista, escritor, historiador, cineasta e ativista político. Nascido em 1943 no Paquistão, atualmente vive na Inglaterra, onde colabora com diversos periódicos e é um dos editores da revista New Left Review. É especialista em política internacional e tem se destacado com análises sobre o Oriente Médio e a América Latina.
Por Agência Carta Maior.
05/05/2008 | 12:04

Maio de 1968 faz 40 anos. Tornou-se uma data mítica que se inscreveu na história para sempre, lembrando, de forma radical, a rebeldia e o inconformismo. Naqueles dias febris de 68, as velhas e sólidas instituições foram derrubadas e os jovens, com uma imaginação prodigiosa, sacudiram inteiramente a sociedade, que vacilou de alto a baixo.
Parecia, para quem viveu aquele tempo, que um novo mundo estava nascendo. Este movimento de maio, porém, não estava ancorado em uma única idéia motriz, como, por exemplo, a Revolução de Outubro na Rússia de 1917 que tinha no marxismo a sua direção principal. Maio tinha várias idéias que, entretanto, tinham em comum a aspiração para uma liberdade sem limites, uma total oposição às formas sociais dominantes.
Isto, porém, não quer dizer que o movimento de maio, que deixou em pânico os conservadores de todos os matizes, não fosse influenciado desta ou daquela forma por alguns pensadores marcantes da segunda metade do Século XX. Jean-Paul Sartre foi um deles. Sua ousada e brilhante renovação do marxismo, que culminou na imponente Crítica da Razão Dialética, influenciou centenas de jovens nas universidades francesas com conceitos novos como a “serialidade”, o “prático-inerte”, o “grupo em fusão”. Sua companheira, Simone de Beauvoir, foi essencial para proporcionar uma base teórica ao feminismo – fundamental no movimento de maio – com sua célebre obra O Segundo Sexo.
Outros filósofos fundamentais daqueles anos foram Michel Foucault, Herbert Marcuse, Cornelius Castoriadis, Guy Debord, sem esquecer as correntes maoístas e trotskistas. Rosa Luxemburg estava de volta e seu retrato ganhava destaque nas imponentes passeatas que ocorriam praticamente todos os dias. Foucault colocava no centro de seu trabalho o que ele denominava a “microfísica do poder”. Outro que não pode ser ignorado é Louis Althusser, que fazia uma nova leitura de Marx e O Capital. Marcuse foi o pioneiro a salientar a integração da classe operária ao sistema, percebendo a importância dos deserdados, das mulheres, das minorias e dos jovens. Guy Debord, criador do grupúsculo “Internacional Situacionista”, é o autor do hoje clássico livro A Sociedade do Espetáculo, que sintetiza com perfeição as críticas dos jovens rebeldes à sociedade de consumo.
Cornelius Castoriadis é outra influência decisiva. Assinando seus textos radicais como Pierre Chalieu ou Paul Cardan, ele e seu pequeno grupo de companheiros, lançou a revista “Socialismo ou Barbárie”. Publicada pela primeira vez no final dos anos 40, a revista antecipava, em cada edição, o maio de 1968. A revolta estudantil foi espontânea, mas também foi contemporânea de uma das mais ricas etapas do pensamento europeu.
Por Luiz Pilla Vares.
16/04/2008 | 15:59

Eric Hobsbawm não é apenas um dos maiores historiadores vivos, talvez o maior. É também um excelente analista político, o que, aliás, já se manifestava em seus clássicos livros de história, onde estava sempre presente a dimensão política. Há alguns anos, ele publicou uma notável análise da realidade política inglesa, particularmente do Partido Trabalhista, e as responsabilidades da esquerda em relação à avalanche neoliberal da época de Margaret Thatcher, "Estratégias para Uma Esquerda Racional" (Ed. Paz e Terra). Agora, a Companhia das Letras acaba de editar seu "Globalização, Democracia e Terrorismo".
Trata-se de uma coletânea de dez palestras e conferências em que o velho e bom Eric Hobsbawm revela toda sua lucidez na análise da política mundial contemporânea. Num texto acessível, como sempre, léguas distante, como sempre, dos livros arrogantes e quase inacessíveis para o leitor comum da maioria dos acadêmicos. Hobsbawm é um erudito, sem dúvida, mas não usa a sua erudição para nela se encastelar. Ao contrário, quer repartir com seus leitores as suas brilhantes opiniões sobre a política internacional da atualidade, discutindo a democracia, o nacionalismo e o Estado nacional, o terrorismo e as organizações transnacionais, a guerra, e até mesmo o fenômeno do futebol. É, enfim, talvez a primeira análise profunda, embora escrita em textos leves, da política mundial no Século XXI.
Destaca-se nesta pequena e notável obra a crítica dura que o historiador faz ao atual governo dos Estados Unidos, liderado por George W.Bush, cujas ações cada vez mais imperialistas empurram o mundo para contínuas guerras localizadas e constituem uma ameaça cada vez maior à democracia, salientando, em conseqüência, a ampliação em escala global de um desequilíbrio político e ambiental, o que aprofunda a desordem, o conflito e a barbárie. Todo este leque de questões não é abordado com uma problemática teórica, mas como fatos concretos que pertencem ao nosso cotidiano e estão presentes de forma permanente nos noticiários da mídia do mundo inteiro, como, por exemplo, a crescente violência urbana e o preocupante problema do nível de emprego.
Hobsbawm não cai na tentação do otimismo fácil e enganador. Ao contrário, ele nos descortina uma realidade opressiva e angustiante, que, para superá-la, é preciso conhecê-la e criticá-la com lucidez e distanciamento. É o que ele faz em "Globalização, Democracia e Terrorismo", que se torna leitura obrigatória para todos os que estão comprometidos com o engajamento político nesta época de dúvidas e incertezas. Deste livro fascinante, tiramos uma conclusão fundamental e imprescindível: para mudar a realidade é condição essencial conhecê-la, sem escamotear a sua face obscura e cada vez mais bárbara. A contrário: é preciso ressaltar o momento crítico em que vivemos e que progresssivamente tem nos levado a um perigoso retrocesso histórico. Ou seja, o conhecimento e a crítica são dois elementos básicos, indispensáveis para a ação que pode nos livrar da barbárie já presente no nosso dia-a-dia. O livro de Hobsbawm não é otimista, mas sua leitura certamente dá forças e renova a enegia dos inconformados com a realidade do mundo em que vivemos.
Por Luiz Pilla Vares.
02/04/2008 | 17:15

Este ano de 2008 marca os 60 anos da morte do grande cineasta russo Serguei Eisenstein, o diretor de clássicos do cinema como "Encouraçado Potemkim", "Outubro", "A Greve". Eisenstein não foi revolucionário tão somente como um socialista assumido, mas como autor, a tal ponto que a sua obra demarca nitidamente a história do cinema, com a introdução de uma nova linguagem que combinava, através de um ousada e inédita técnica de montagem, as mais variadas formas de arte, desde a literatura até a arquitetura, a pintura, a escultura,a fotografia, não de forma isolada, fragmentária, mas numa nova unidade que consistiria na essência da então nova arte que era o cinema.
Com efeito, para ele o filme era uma forma superior de arte, capaz de absorver todas as linguagens estéticas. Depois de Serguei Eisenstein, o cinema deixou de ser um mero entretenimento para se tornar a arte por excelência do Século XX. O autor de "Encouraçado Potemkim" foi, sem dúvida alguma, o maior diretor da história do cinema da velha União Soviética. Engenheiro de formação, sua verdadeira vocação era a arte: ele conviveu com todas as formas de expressão estética, principalmente com o teatro vanguardista de seu tempo, como as encenações dirigidas por Meyerhold, a poesia futurista de Maiakovsky, a literatura de James Joyce.
Mas Eisenstein não foi apenas um revolucionário na arte. Foi, também, um revolucionário na vida. A Revolução de Outubro de 1917 teve um efeito decisivo em sua vida. Como engenheiro, aderiu ao Exército Vermelho como voluntário, trabalhando em construções militares e no anel de defesa de Petrogrado e permanecendo na luta durante os anos mais violentos da guerra civil. Foi um dos primeiros integrantes de um movimento estético de grande importância nos primeiros anos da Revolução, o célebre "Proletkult", que nada tem a ver com o tristemente famoso "realismo socialista" de Zdanov e Stálin. O "Prolekult" reunia os autores mais criativos e ousados da jovem Rússia Soviética, os vanguarditas que não separavam a revolução social da revolução estética. Para Eisenstein e seus contemporâneos, a arte revolucionária era inseparável de uma permanente revolução formal e, portanto, em contradição antagônica com os métodos naturalistas, principalmente a linha seguida pelo mestre da direção de atores, Stanislavski. Com essa perspectiva, obviamente Eisenstein não seria aceito pelo confomismo estético da burocracia stalinista e o progressivo fechamento do regime acabou por se tornar uma verdadeira prisão para a sua estética revolucionária na forma e no conteúdo. Assim como Maiakovsky, poeta revolucionário como ele, que acabou se suicidando diante das frustrações no cotidiano que era a própria negação do novo mundo que eles viam nas promessas contidas na grande Revolução de 1917.
Eisenstein certamente morreu desencantado com a sociedade que surgia das cinzas do bolchevismo revolucionário de Lenin e Trotsky. Sua obra, porém, permanece viva e não há quem não se deslumbre até hoje com as poderosas e inigualáveis imagens que marcaram para sempre a história da arte cinematográfica mundial.
Por Luiz Pilla Vares.
19/03/2008 | 15:21

Na última terça-feira, 18 de março, morreu Arthur C.Clarke, físico e matemático, mas acima de tudo o autor inesquecível de "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Clarke formava com Isaac Asimov e Ray Bradbury a grande trindade da ficção científica do Século XX. Apesar de não ter a poesia de Bradbury (o autor de " Farenheit 451" e "Crônicas Marcianas"), Clarke certamente será sempre lembrado como o autor mais importante do gênero dos últimos cem anos, justamente por seu livro "2001 - Uma Odisséia no Espaço", onde de forma criativa e excepcional imaginação descreve a luta do ser humano que se insuge contra a submissão à máquina, simbolizada pelo supercomputador HAL 900. O livro, de 1968, deu origem a um magnífico filme dirigido por Stanley Kubrick, com o mesmo título, que certamente ficará na história do cinema. Aliás, o "2001" de Kubrick é um dos raros casos na história da arte em que a adaptação cinematográfica supera o original literário. Mas este fato de modo algum diminui a notável obra de Arthur C. Clarke. Pelo contrário, o filme é um verdadeiro tributo à criatividade e à prodigiosa imaginação de Clarke e sua capacidade de pensar a luta do ser humano para se manter dono de seu próprio destino.
Além disso, o livro (como o filme) se mantém extremamente atual, na medida em que nos dias que correm cada vez mais somos envolvidos neste problema radical e angustiante da contínua alienação dos seres humanos diante da vertiginosa evolução tecnológica. Clarke publicou em seguida "2010 - Uma Odisséia no Espaço 2", "2061 - Uma Odisséia no Espaço 3" e "3001 - A Odisséia Final", mas nenhuma deles possui a qualidade artística do primeiro romance, embora não sejam obras destituídas de valor e enredos atrativos, mas estão longe de chegar perto da obra prima que foi "2001".
Também como Bradbury e Asimov, Clarke não foi autor de uma única obra. Escreveu uma extensa bibliografia que o tornou um dos grandes mestres da ficção científica, um gênero que se iniciou no Século XIX, com Jules Verne, afirmou-se com H.G. Wells e tornou-se parte integrante da literatura da centúria passada. Ele foi condecorado em 1998 com o título de "Sir" pelo príncipe Charles, da Inglaterra. Mas isso não tem a menor importância, nem altera a sua contribuição para a literatura e, graças a Stanley Kubrick, também para o cinema. Arthur C. Clarke passará mesmo para a história da arte como o autor genial de "2001 - Uma Odisséia no Espaço".
Por Luiz Pilla Vares.
10/03/2008 | 17:15
O Marxismo no centro do Império

Sim, existe marxismo nos Estados Unidos. E dos bons. Talvez a mais ousada iniciativa de revitalizar a teoria de Karl Marx nos dias atuais. Prova disso é o excelente dossiê que a revista Cult publica em sua edição de março Os Inimigos Íntimos. O dossiê começa com uma pequena introdução do professor de sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Ruy Braga, traçando um panorama do marxismo estadunidense a partir de um texto de Perry Anderson, professor inglês e ex-diretor da famosa revista inglesa New Left Rewiew, Considerações sobre o Marxismo Ocidental. Ele apresenta aos leitores os marxistas pouco conhecidos do público brasileiro, mas influentes no meio universitário norte-americano: David Harvey, Mike Davis, Erik Olin Wright, Michael Burawoy, e Fredric Jameson, este mais nosso conhecido com alguns livros traduzidos no Brasil.
Também o ensaio de Ricardo Musse sobre David Harvey aborda as relações entre economia e política esboçadas por Marx, apenas esboçadas, pois o velho Marx não teve tempo de desenvolver. Harvey defende a tese de que a chamada “acumulação primitiva” do capital é um momento estrutural do dinamismo histórico do capitalismo em oposição aos que a consideram como uma mera etapa à emergência do capitalismo, num debate que, envolve, como sempre, as teorias de Rosa Luxemburgo.
Em seguida, a professora Maria Elisa Cevasco, do departamento de Letras Modernas da USP, escreve Fredric Jameson, um dos mais importantes críticos da cultura pós-moderna: “Fazer da crítica cultural uma das formas da ruptura necessária com a produção de infelicidade que caracteriza a paisagem devastada da mesmice globalizada é o grande plano que nos lega este intelectual ímpar”.
Henrique Carneiro, professor do Departamento de História da USP, nos apresenta Mike Davis, urbanista e historiador, “um dos mais importantes marxistas norte-americanos”, cujos livros Cidades Mortas (Record, 2007) e Planeta Favela (Boitempo, 2006), já estão traduzidos para o público leitor brasileiro que aguarda agora Apologia dos Bárbaros: Ensaios contra o Império, além da reedição de Cidade de Quartzo, já um clássico e leitura obrigatória para todos (as) políticos (as) de esquerda que assumem as administrações municipais.
Finalmente uma instigante entrevista com dois dos maiores expoentes do novo marxismo norte-americano, Erik Olin Wright e Michael Burawoy, que discutem uma questão provocativa: porque não houve um movimento socialista forte nos Estados Unidos?
É de lamentar apenas que o dossiê de Cult não tenha traçado um esboço, pelo menos, do passado do marxismo nos Estados Unidos, cujas contribuições para o desenvolvimento da teoria não foram poucas, como, na área da economia e da política as obras de Paulo Sweezy e de Paul Baran, a influência internacional da “Monthly Rewiew”, a obra de divulgação de Leo Huberman, onde desponta o clássico “História da Riqueza do Homem”, e a inegável contribuição da escola trotskista, cujo apogeu se encontra na área historiográfica com a obra prima de C.R.L James, “Os Jacobinos Negros”, sobre a revolução negra no Haiti em fins do Século XVIII.
Por Luiz Pilla Vares.
12/02/2008 | 15:42

Está nas livrarias uma obra imperdível para quem se preocupa com a História do Brasil. Trata-se de “1808”, de Laurentino Gomes. Não é um livro acadêmico. Ao contrário, graças a sua longa experiência de jornalista, Laurentino Gomes escreveu com estilo agradável e de leitura fácil, sem cair, em nenhum momento no reducionismo e nas simplificações. É uma obra que reconstitui toda a trajetória que motivou a vinda de D.João VI e sua corte para o Brasil, sua chegada primeiro em Salvador, na Bahia, e depois no Rio de Janeiro. Nas suas páginas, o país que se revela à corte portuguesa é uma colcha de retalhos, à beira de uma fragmentação total. A chegada de D.João VI teve o indiscutível mérito de construir uma unidade que parecia impossível, além de sedimentar o caminho para a independência que viria em 1822.
Na prática, porém, o Brasil já era um país a partir de 1808, quando se tornou a sede do império lusitano, já que as tropas de Napoleão ocuparam Portugal o que motivou a fuga da corte que se instalou no Rio de Janeiro. Não se pense, entretanto, que teria sido o gênio de D.João, então príncipe regente, que estruturou esta obra que, ao fim e ao cabo, foi a instituição do Brasil como nação. Evidentemente, a Inglaterra estava por trás de tudo. Ela precisava do Brasil em sua luta de vida ou morte contra as tropas napoleônicas e empenhou-se decisivamente, com apoio material e financeiro, para a vinda da corte. Não por acaso, o primeiro ato de D.João foi o da abertura dos portos na costa brasileira às “nações amigas” (leia-se Inglaterra).
D.João não foi o bobalhão que passou ao folclore. Mas era um príncipe regente indeciso, vacilante, medroso e supersticioso, mas muito distante da imagem caricata apresentada no belo filme de Carla Camurati, “Carlota Joaquina – Princesa do Brasil”. O brasilianista Kennet Maxwell afirma que a ceda de D.João e sua corte trata-se de “um dos momentos fundadores mais decisivos na formação do Brasil...principalmente porque com a chegada de uma corte européia na América, algo que não aconteceu em nenhum outro lugar, houve uma transferência de legitimidade para um governo localizado numa colônia na América, transformando-o assim, imediatamente, no centro de um império global, como de fato o Brasil era depois de 1808”. E o historiador mineiro José Murilo de Carvalho diz que o príncipe D.João podia ter decidido ficar em Portugal. Nesse caso, o Brasil com certeza não existiria. A colônia se fragmentaria, como se fragmentou a parte espanhola da América. Teríamos, em vez do Brasil de hoje, cinco ou seis países distintos”.

Por Luiz Pilla Vares.
30/01/2008 | 15:25