AULA PÚBLICA

Leonardo Boff traz esperança e motiva

esquerdas em palestra no Legislativo

Ronaldo Quadrado

Ronaldo Quadrado

A enorme fila que se formou do lado de fora do Teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa, na noite de segunda-feira (14), deu ideia da importância do palestrante convidado para ministrar a aula pública “Em defesa da Democracia, da Soberania e dos Direitos do Povo Brasileiro”. Quando o teólogo Leonardo Boff apareceu no palco trazendo consigo um cachecol com as inscrições ‘Lula Livre’ foi intensamente aplaudido e ovacionado como “o profeta”. Durante quase uma hora, Boff arrancou muitos aplausos, trouxe informações sobre a recente visita que fez a Lula em Curitiba, fez duras críticas ao Judiciário brasileiro, em especial ao Supremo Tribunal Federal (STF), e àqueles que promoveram o Golpe de 2016. Ele ainda alertou sobre a interferência dos Estados Unidos no Brasil e em outros países emergentes, com todo aval do atual governo federal, e conclamou os presentes a se manterem unidos na luta pela democracia. O teólogo lembrou Leonel Brizola, de quem foi amigo e admirador e “que faz muita falta nos dias de hoje”.

No final, Boff citou Santo Agostinho, que disse: “A esperança tem duas belas irmãs: a indignação - contra tudo que está aí - e a coragem - pra mudar essa situação.” E completou: “Nos indignemos contra todos os mal feitos mas, mais que tudo, tenhamos coragem, sem medo de lutar para mudar essa situação.”

No começo da atividade, Leonardo Boff comentou sobre a visita que fez a Lula, em Curitiba. O teólogo disse que foi o primeiro a falar com o ex-presidente, um amigo de cerca de 40 anos. “Depois de 30 dias, fui o primeiro a visitá-lo. Nos abraçamos e choramos juntos! Lula tinha saudades do povo, de gente e conversamos para além da hora. Ele está bem, com a mesma cara e o mesmo humor, mas profundamente indignado com as muitas mentiras e distorções que fazem contra ele, especialmente, do juiz Sérgio Moro. Deveríamos esquecer esse juiz, que é um traidor, formado nos Estados Unidos e treinado para aplicar o “lawfare” (uso indevido de recursos jurídicos para fins de perseguição política).”

Boff disse que, durante a conversa com Lula, o líder petista afirmou que está com muita esperança e mandou um recado ao povo brasileiro: “Eu estou candidatíssimo e quero chegar na Presidência para radicalizar nas políticas sociais. Durmo tranquilo e recebo duas injeções, uma pela manhã e outra à noite”, referindo-se ao ‘bom dia Lula, boa noite Lula’ pronunciado pela militância acampada em Curitiba.

Para o teólogo e autor de vários livros, sendo o mais recente “Brasil, concluir a refundação ou prolongar a dependência”, lançado na noite desta segunda, na Assembleia Legislativa, a causa de Lula é mais do que Lula. “A elite do atraso, que está montada no poder há mais de 500 anos, tem como objetivo negar o projeto que beneficia o andar de baixo.” Boff afirmou que “eles (elite do atraso) nunca aceitaram que Lula, um operário nordestino, fosse presidente”.

Expoente da Teologia da Libertação no Brasil, Boff passou boa parte da aula pública enaltecendo a pessoa e o comportamento de Lula, seja como líder partidário e presidente, como ser humano. “Nunca vou esquecer dos pobres”, disse Boff ao recordar de uma das tantas falas de Lula.

Desafios

Leonardo Boff elencou três pontos que considera como desafios à esquerda e ao povo brasileiro. O primeiro é o resgate do ‘pacto social’ firmado quando da elaboração da Constituição de 1988. “Aquele pacto social foi rompido.” Na época, explicou, “houve uma espécie de acerto das classes, um acerto das frentes que miravam um Brasil mais progressista, num tempo de otimismo e no qual até os grandes investidores nacionais e estrangeiros se inclinaram e no qual muitos apostaram em criar um novo tipo de Brasil.” Para Boff, esse pacto foi rompido pelo golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016. Ele considera que “não existe mais Constituição, leis; reina o puro arbítrio”.

Outro aspecto considerado por Boff é que não é possível considerar o Brasil só a partir do Brasil. Diz que o Brasil está na mira das grandes corporações internacionais, especialmente, “do império norte americano” e alertou que o Aquífero Guarani é o próximo alvo dessas corporações. Por último, disse que desestabilizar todos os governos progressistas, que não se alinham à lógica imperial, é a mais recente estratégia internacional.

“Estão previstos novos golpes, não mais militares, mas parlamentares, cujos adeptos são comprados por empresários. Marcelo Odebrecht, presidente do Grupo Odebrecht, confirmou que deu R$ 100 milhões a parlamentares para votar pelo impeachment de Dilma”, disse Boff. Em síntese, o teólogo afirmou que se trata de enfraquecer o Estado e dar espaço ao mercado. Ou seja, “não privatizar, mas desnacionalizar os bens do Estado, como o pré-sal, a energia elétrica, as riquezas da Amazônia.”

O teólogo fez um questionamento à plateia: quem vai comandar a 7ª economia do mundo, que é o Brasil? De acordo com Boff, o espaço do Atlântico Sul está a descoberto, e denunciou: embarcações militares norte americanas já estão “plantadas em frente ao pré-sal brasileiro”. Boff alertou que a nova guerra fria não é mais Estados Unidos x Rússia, mas EUA x China. “A China está penetrando nos Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), poderosamente, em toda a América Latina, e inclusive no Brasil. Portanto, estão atacando o Brasil e, em consequência, a China. O nosso país é um pouco vítima disso”, acredita.

Outro ponto estratégico citado por Boff e que é meta dos interesses internacionais é a recolonização do Brasil. Isso, para ele, significa a perda da soberania brasileira e a passagem do país à condição de mero exportador de commodities - sementes, alimentos, minérios, água. “Desnacionalizar e recolonizar, reduzir o país a uma colônia que fornece bens e serviços da natureza. Nos relegam a uma função marginal, de exportação de produtos que eles (EUA) não têm mais. Isso é a nossa perda de soberania”, explicou.

Relações sociais

“Nunca houve uma crise tão grave no mundo e que atinge os fundamentos das relações sociais. Nunca se viu tanto ódio, como vemos nas ruas e nas mídias sociais, até dividindo famílias”, afirmou Leonardo Boff. De acordo com ele, há uma desumanidade, conhecida só nos tempos do nazismo. Disse o teólogo que vivemos numa sociedade de lobos e que temos que rejeitar ser, de novo, uma colônia. “Isso é uma humilhação”, acrescenta.

O que deixa Boff perplexo é que os aliados internos que estão no Brasil se prestam a esse conluio, “a essa traição, e eles não ganham nada com isso, apenas preservam o poder político e utilizam a máquina do Estado para manter seus projetos e suas propinas”. Argumenta que aqueles que estão no poder continuam como “casa grande” e a “senzala” virou todo esse universo de excluídos. “Impedem que o povo suba um degrau e não têm um projeto para o Brasil”, reclamou.

Para Leonardo Boff, o grande cúmplice da situação brasileira e do Golpe sofrido no Brasil é o Supremo Tribunal Federal (STF). Citou como exemplo a liberdade concedida para o tucano Paulo Pretto, com 110 milhões de dólares em contas declaradas na Suíça, e a manutenção da prisão de Lula. Boff chegou a nomear como “traidora” a presidenta do STF, Carmem Lúcia, que ao ser nomeada por Lula, em 2006, disse que seria eternamente grata pela nomeação. Ainda sobre o Judiciário, Boff disse que “criaram um patamar jurídico permitindo que esse golpe se perpetue”.

Resistência

A aula pública foi uma ideia do deputado federal Henrique Fontana (PT), sendo acatada pela Frente Brasil Popular (FBP) e pela Frente Povo sem Medo. Na atividade, Fontana disse que a mobilização do povo brasileiro não parará enquanto não recuperarmos a democracia, os nossos direitos e o nosso projeto de nação. “Não nos derrotarão; nós os derrotaremos”, exclamou o parlamentar. Em seguida, e em nome do PT, o ex-ministro Miguel Rossetto citou que, embora haja muita vilania, a partir do Golpe de 2016, há muita resistência. Disse que prenderam Lula, que representa a esperança do povo brasileiro, mas a unidade partidária, dos movimentos sociais e do povo são muito mais fortes para que sejam resgatadas a democracia, direitos sociais extraídos e Lula Livre seja, de fato, candidato à Presidência.

Marielle presente

A aula pública coincidiu com o segundo mês da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, assassinados no Rio de Janeiro (RJ). No palco, o deputado Pedro Ruas fez referência a esse episódio e falou sobre a prisão de Lula, afirmando que Guilherme Boulos, pré-candidato do partido à presidência da República, tem sido porta-voz nacional do PSOL na luta contra essa arbitrariedade. Ressaltou que a presa na prisão de Lula não se vê na investigação sobre Marielle e Anderson.

A deputada estadual e pré-candidata do PCdoB à presidência da República, Manuela D’Ávila participou da atividade e lembrou o que disse Lula, antes dele se tornar preso político. “Quando ele (Lula) afirmou que nós seríamos a sua voz do lado de fora da solitária, hoje vemos que somos muitos(as).” Manuela disse que o Golpe acontece cotidianamente: com a Reforma Trabalhista, com o trabalho escravo, mas de forma mais clara com a prisão do maior líder desse país, Lula, encarcerado sem ter cometido nenhum crime. A nossa luta passa pelo direito de Lula concorrer, mas em liberdade.”

Pela Via Campesina, a representante do MST, Danielli Casarotto afirmou que o Movimento continuará acampado em Curitiba fazendo a vigília e lutando até que o presidente Lula seja libertado. “Continuaremos nos organizando e fazendo a batalha nas ruas e lutando pelo projeto de uma nova sociedade.” Por sua vez, Cláudia Ávila, do Movimento dos Trabalhadores sem Teto, disse que o momento é de unidade das esquerdas para barrar a escalada fascista que ameaça a democracia brasileira. “Ocupamos o apartamento de Guarujá (SP) e mostramos ao mundo a fraude da qual Lula foi vítima. Seguiremos nas ruas por justiça para Marielle e pelo direito de Lula ser candidato livre”, finalizou.

Ainda se manifestaram e homenagearam Leonardo Boff jovens do Movimento Estudantil. Na aula pública, também estiverem presentes os deputados federais, pelo PT, Elvino Bohn Gass, Dionilso Marcon e Maria do Rosário, e os estaduais, Altemir Tortelli, Stela Farias, Tarcísio Zimmermann.

Texto: Roger da Rosa (MTE 6956)

 

 

Publicado em 15/05/2018 às 16:35

Texto: Roger da Rosa (MTE 6956)

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