Emancipação em Santa Maria e no Brasil

Na mesma semana que a nossa Santa Maria completou 154 anos de emancipação política, o que é motivo de orgulho para todos santa-marienses de coração ou adoção, o nosso país também deu início a um grande processo de emancipação da verdade, da justiça e da memória. A democracia firme e inabalável dos dias atuais e a própria passagem de gerações encobrem, até de modo involuntário, o que se passou no nosso país entre 1964 e 1985.

Nesses 21 anos, o Brasil foi governado por um regime que suprimiu liberdades, trancafiou o direito à opinião e à expressão e torturou e eliminou aqueles que discordavam do sistema em vigor. A abertura democrática e a promulgação da Lei nº 6.683, a Lei da Anistia, pelo presidente Figueiredo em 28 de agosto de 1979 representaram os capítulos finais do regime de exceção do ponto de vista da história e do registro dos fatos. Do ponto de vista humano, os anos de chumbo continuaram vivos e doloridos no seio de inúmeras famílias brasileiras que tiveram entes torturados, humilhados e até mesmo assassinados pela polícia política da época.

Se a dor da perda é intensa, a dor do desconhecimento é ainda maior. Essas famílias simplesmente não foram informadas, como acontece com qualquer família hoje, de que forma a vida de um filho, de um tio ou de um sobrinho se encerrou. Não se sabe onde, quando e em que circunstâncias vidas foram ceifadas por motivações políticas. As famílias não enterraram seus mortos. Não há algo mais dolorido e asfixiante do que saber que alguém muito próximo morreu e não poder enterrá-lo. Isto é uma hemorragia moral que nunca estanca. Pois nesta semana a sensação de impotência das famílias dos desaparecidos mudou. A instalação da Comissão da Verdade, da Memória e da Verdade no Brasil representa um alento histórico para quem já não carregava mais esperanças de reproduzir o passado e assim encaminhar um futuro menos triste e de mais esperança. Representa uma redenção do Brasil e dos brasileiros. A comissão é integrada por um colegiado de sete notáveis, entre eles o gaúcho Gílson Dipp, ministro do Superior Tribunal de Justiça, e tem a missão de reconstituir o que aconteceu nos porões do país no período de exceção.

O objetivo da comissão não é fazer revanchismo. O objetivo central é devolver a verdade e assim permitir que muitas famílias possam dormir sem ter o sono interrompido pelo pesadelo do desconhecimento. Apoio total à Comissão da Verdade. O Brasil devia isso aos brasileiros e o nosso país só se engrandece ao desvendar de fato esta passagem triste da nossa história, que deve ser lembrada e resgatada para que nunca mais se repita. Reitero o que disse a Presidenta Dilma ao lançar a comissão: não pode existir história sem voz.

*Valdeci Oliveira é deputado estadual, líder do partido e de governo do PT.

 

 

Publicado em 21/05/2012 às 17:57

Valdeci Oliveira

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